Loading...
vida&obra2019-01-07T13:44:22+00:00

SAMUEL SCHWARZ: VIDA & OBRA

A VIDA

Samuel Schwarz nasceu em 1880, na cidade de Zgierz (Polónia), sendo o primeiro filho de um casal da comunidade judaica local. De seu pai, Issucher Schwarz, jurista de profissão, bibliófilo por paixão e sionista por convicção, tomou o gosto pelos livros e identificou-se com a cultura judaica. Profissionalmente, decidiu percorrer um outro caminho que o conduziu à École Supérieure des Mines de Paris, onde obteve o grau de engenheiro, em 1904. Em trabalho, iniciou um ciclo de viagens que o levaram por toda a Europa e até ao Cáucaso e Azerbeijão, passando pela Polónia natal, Itália, Espanha e, finalmente, Portugal, onde acabou por se fixar.

Em 1914, constituiu família, casando com Agata Barbash, filha de um banqueiro judeu, de Odessa. Estando em lua de mel na Península Ibérica, os ventos da guerra impediram o casal de regressar a Odessa, onde pensavam radicar-se. Assim, foi em Lisboa que nasceu, em 1915, a única filha do casal, Clara. Uma vez em Portugal, Samuel Schwarz, usando o seu equipamento fotográfico e de filmar, captou momentos e lugares significativos, frequentou a comunidade judaica de Lisboa e, necessariamente, começou a trabalhar na sua área profissional.

Biblioteca Samuel Schwartz
Biblioteca Samuel Schwartz

Contudo, não adivinhava a reviravolta intelectual que teria lugar na sua vida quando, trabalhando como engenheiro na região de Vilar Formoso e Belmonte, se deparou com comunidades esquecidas de judeus – melhor, de “cripto-judeus” ou marranos – que se assumiam como cristãos perante vizinhos e forasteiros, mas que persistiam, havia séculos, no seu culto ancestral, no recato e reserva dos seus lares. Este assunto tinha-o interessado havia já algum tempo, desde quando vivera na Galiza, mas apenas em 1917 conseguiu encontrar em Portugal as pessoas e a realidade de que há muito suspeitava.

Foi o trabalho de estudo e divulgação dessas comunidades e dos seus costumes, o legado que distinguiu Samuel Schwarz na cultura portuguesa, trazendo novamente à luz do dia estas “relíquias vivas”. Os resultados da sua investigação foram divulgados na obra Os Cristãos Novos em Portugal no século XX, publicada pela primeira vez em 1925. Este trabalho é também uma síntese dos seus mais profundos tópicos de interesse intelectual e cultural: o judaísmo, a história, a arqueologia. A descoberta de Samuel Schwarz e as suas reflexões sobre os judeus e o judaísmo em Portugal contribuiriam para dar a conhecer ao mundo uma parte importante da História portuguesa, promovendo até a vinda a Portugal de alguns grandes vultos da literatura e da historiografia judaica, como Cecil Roth, Lucien Wolf e Nahum Slouschz.

Através deste e de outros estudos, Samuel Schwarz, não obstante ser proveniente de um contexto asquenazita, tornou-se uma referência e um estímulo, pelo seu trabalho e personalidade, para a revitalização da comunidade judaica portuguesa e da sua identidade, que não se esgotava, nos descendentes dos sefarditas “ocultos” desde a sua expulsão, determinada em 1496.

Na década de 30 do século XX, já em Lisboa, Samuel Schwarz aprofundou as suas ligações ao país de acolhimento, pedindo e obtendo a naturalização, não deixando porém de manter laços de contacto com o seu país de origem, pela criação da Câmara de Comércio Polaca, a que presidiu. Paralelamente, o seu empenho nas questões hebraicas, do ponto de vista cultural e arqueológico, foi muito estimulado, na medida em que localizara e adquirira a antiga sinagoga medieval de Tomar, que ofereceu ao Estado português. Esta oferta tinha em vista a valorização da presença judaica em Portugal, através da criação de um Museu, algo que nunca chegou a concretizar-se durante a sua vida.

Ao longo da sua vida, aproximou-se cada vez mais da causa política sionista, tendo em conta o contexto das difíceis conjunturas que afetaram a sua família e a de sua mulher, no contexto da guerra, e que levaram à diáspora da família.
Nos últimos anos, a idade e a debilidade física foram adiando e por fim impossibilitando o que muito ansiava: o reencontro, em Israel já independente, de irmãos, sobrinhos e outros parentes, os sobreviventes e descendentes da sua grande família dispersa pelo mundo.

Morreu em Lisboa, em 1953, pouco tempo depois do falecimento da mulher.

Biblioteca Samuel Schwartz

CRONOLOGIA

1880

Nasce a 31 de Janeiro, em Zgierz (Polónia/Rússia)

1896-97

Cursa na École National des Arts Décoratifs

1898

Ingressa na École Supérieure des Mines de Paris

Samuel Schwartz

1900-01

Tira um ano sabático

1904

Obtém o diploma da École Supérieure des Mines de Paris

Trabalha num campo de petróleo em Baku (Arzebeijão), nas minas de carvão em Sosnowiec (Polónia) e em Inglaterra

1907-1909/10

Estabelece-se em Espanha para trabalhar nas minas de Arnøya Mining Company, em Conso (Ribadavia, Orense), e em outras minas de Orense e de Pontevedra

Adere à Academia Galega

1911

Durante um ano, trabalha na mina de ouro da Monte Rosa Gold Mining Comp., em Alagna Valsesia (Itália)

1912

Regressa a Ourense

1913

Colabora na revista España Nueva

Vai a Viena ou Odessa encontrar-se com o pai e com o futuro sogro para assentar o seu casamento

Pai e futuro sogro de Samuel Schwartz

1914

No mês de Abril, casa-se em Odessa com Agata Barbash e inicia uma viagem de núpcias pela Europa

Foto de família

1915

Fixa-se em Portugal, pela impossibilidade de regressar a Odessa, devido à guerra

Começa a trabalhar em minas de volfrâmio, em Vilar Formoso, e de estanho, em Belmonte

A 14 de fevereiro, nasce a filha Clara, em Lisboa

1917

Localiza os primeiros indícios do cripto-judaísmo em Belmonte

Prossegue a sua actividade de exploração mineira na região

1921

Torna-se o sócio correspondente n.º 65 da Associação dos Arqueólogos Portugueses

1922

Publica Inscrições Hebraicas Portuguesas

1923

Compra o edifício da antiga sinagoga de Tomar, a 5 de Maio

1924

1ª edição da obra Cristãos Novos em Portugal no século XX, na revista Arqueologia e História

1930

Criação da Câmara de Comércio Luso-polaca, a que presidiu

1932

Na qualidade de presidente da Câmara de Comércio Luso-polaca, acompanha as cerimónias oficiais por ocasião da chegada do navio-escola polaco Iskra ao Funchal, a 18 de Março

1939

Recebe a notícia da morte do pai, na Polónia, na sequência da devassa da casa e destruição da sua biblioteca, no contexto da guerra

Doa a antiga sinagoga de Tomar ao Estado português, a 28 de Março

Homologada a criação do museu na antiga sinagoga, por despacho ministerial de 27 de Julho

Naturaliza-se português

Inicia diligências para trazer da Polónia alguns membros da família, a fim de os salvar da guerra, mas é negada autorização para que se fixem em Portugal

1953

Morre em Lisboa, no dia 10 de Junho

CRONOLOGIA

1880

Nasce a 31 de Janeiro, em Zgierz (Polónia/Rússia)

 

1896-97

Cursa na École National des Arts Décoratifs

 

1898

Ingressa na École Supérieure des Mines de Paris

 

1900-01

Tira um ano sabático

 

1904

Obtém o diploma da École Supérieure des Mines de Paris

Trabalha num campo de petróleo em Baku (Arzebeijão), nas minas de carvão em Sosnowiec (Polónia) e em Inglaterra

 

1907-1909/10

Estabelece-se em Espanha para trabalhar nas minas de Arnøya Mining Company, em Conso (Ribadavia, Orense), e em outras minas de Orense e de Pontevedra

Adere à Academia Galega

 

1911

Durante um ano, trabalha na mina de ouro da Monte Rosa Gold Mining Comp., em Alagna Valsesia (Itália)

 

1912

Regressa a Ourense

 

1913

Vai a Viena ou Odessa encontrar-se com o pai e com o futuro sogro para assentar o seu casamento

Colabora na revista España Nueva

 

1914

No mês de Abril, casa-se em Odessa com Agata Barbash e inicia uma viagem de núpcias pela Europa

 

1915

Fixa-se em Portugal, pela impossibilidade de regressar a Odessa, devido à guerra

A 14 de fevereiro, nasce a filha Clara, em Lisboa

Começa a trabalhar em minas de volfrâmio, em Vilar Formoso, e de estanho, em Belmonte

 

1921

Torna-se o sócio correspondente n.º 65 da Associação dos Arqueólogos Portugueses

1922

Publica Inscrições Hebraicas Portuguesas

 

1923

Compra o edifício da antiga sinagoga de Tomar, a 5 de Maio

 

1924

1ª edição da obra Cristãos Novos em Portugal no século XX, na revista Arqueologia e História

 

1930

Criação da Câmara de Comércio Luso-polaca, a que presidiu

 

1932

Na qualidade de presidente da Câmara de Comércio Luso-polaca, acompanha as cerimónias oficiais por ocasião da chegada do navio-escola polaco Iskra ao Funchal, a 18 de Março

 

1939

Recebe a notícia da morte do pai, na Polónia, na sequência da devassa da casa e destruição da sua biblioteca, no contexto da guerra

Doa a antiga sinagoga de Tomar ao Estado português, a 28 de Março

Homologada a criação do museu na antiga sinagoga, por despacho ministerial de 27 de Julho

Naturaliza-se português

Inicia diligências para trazer da Polónia alguns membros da família, a fim de os salvar da guerra, mas é negada autorização para que se fixem em Portugal

 

1953

Morre em Lisboa, no dia 10 de Junho

 

 

A OBRA

Schwarz, Samuel. “De la infuencia ejercida por la inmigración Judía de España y Portugal en el desenvolvimento económico del Globo”. La España Moderna. Año 24, tomo 282 (1912): 103-108.

Schwarz, Samuel. “Inscrições Hebraicas em Portugal”. Arqueologia e História vol. 1 (1922), pp. 124-168

Schwarz, Samuel. “Os Cristãos-Novos em Portugal no Século XX”. Arqueologia e História, vol. 4 (1924), pp. 5-114. Separata publicada em 1925 (Lisboa: Tipografia do Comércio, 1925).

Schwarz, Samuel. “I Marrani dei Portogallo”. La Rassegna Mensile di Israel, vol. 1, nº 2 (1925): 85-97; vol. 1, nº 3 (1925): 155-168; vol. 1, nºs 4-5 (1926): 199-216.

Schwarz, Samuel. “Jom Kippur bei Portugiesischen Marannen”. La Tribune Juive (Strasbourg), 17 séptembre 1926: 574-575 [ http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k6226857n/f1.item ]

Schwarz, Samuel. “O Renascimento judaico dos marranos portugueses”. Ha-Lapid 24 (1929): 4-6. [ http://www.rebordelo.net/cripto-judaismo/halapid/n024/Ha-Lapid_ano04-n024-Heshvan_5690_Out_1929.pdf ]

http://www.rebordelo.net/cripto-judaismo/halapid/

Schwarz, Samuel. “Arqueologia mineira: extracto dum relatório àcêrca de pesquizas de ouro, apresentado em Março de 1933 pela Emprêsa Mineira-Metalúrgica, Limitada”. Lisboa, 1936.

Schwarz, Samuel. Projecto de Organização de um Museu Luso-Hebraico na Antiga Sinagoga de Tomar. Lisboa: [s.n.], 1939 (Lisboa : Gráf. Santelmo, 1939).

Cântico dos Cânticos. Trad. e pref. Samuel Schwarz. 1ª ed. Lisboa, s.n., 1942.

Litwinski, Leon; Schwarz, Samuel. Anti-semitismo: conferências realizadas em 27 de Junho de 1944 sob os auspícios da Associação dos Cidadãos Polacos em Lisboa. Lisboa, s.n., 1944.

Cântico dos Cânticos. Versão Portuguêsa do original Hebraico e introdução de Samuel Schwarz. Rio de Janeiro: Companhia Impressora e Editora Paulista, 1946.

Schwarz, Samuel. “O Sionismo no reinado de D. João III”. Ver e Crer 11 (1946), pp. 101-115.

Schwarz, Samuel. “Origem do nome e da lenda do Preste João das Índias”. Ver e Crer 14 (1946), pp. 42-48.

Schwarz, Samuel. “Quem eram os emissários que D. João II mandou em busca do Preste João?”. Ver e Crer 17 (1946), pp. 92-94.

Schwarz, Samuel. A tomada de Lisboa conforme documento coevo de um códice hebraico da Biblioteca Nacional. Lisboa, 1953. Sep. de: Rev. Municipal.

Schwarz, Samuel. A sinagoga de Alfama: In memoriam do eminente olisipógrafo engenheiro Augusto Vieira da Silva (pref. Jaime Lopes Dias). Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1953 (separata da Revista Municipal, ano XIV, nº 56, 1º trimestre de 1953).

Schwarz, Samuel. História da moderna Comunidade Israelita de Lisboa. Coimbra, O Instituto: revista científica e literária vol. 119 (1957), pp. 161-201; vol. 120 (1958): 140-200.

Schwarz, Samuel. Os cristãos-novos em Portugal no século XX (Reprodução exacta da edição original datada de 1925). Lisboa: Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões, 1993.

Schwarz, Samuel. הנוצרים־החדשים בפורטוגל במאה העשרים [The new-christians in Portugal in the 20th century], trad., introd. e anot. Claude B. Stuczynski; ed. Ruth Toeg (Kuntresin: texts and studies 95). Jerusalem: The Dinur Center for Research in Jewish History; The Zalman Shazar Center for Jewish History, 2005.

Schwarz, Samuel. Os cristãos-novos em Portugal no século XX (Col. Judaica). Lisboa: Livros Cotovia, 2010.

Schwarz, Samuel. La découverte des marranes : les crypto-juifs au Portugal. préface de Nathan Wachtel ; introduction & notes de Livia Parnes; traduction des prières & des procès inquisitoriaux par Florence Lévi, Anne-Marie Quint & Bernard Tissier. Paris : Chandeigne, 2015

Apresentação de Samuel Schwarz, datada de Fevereiro de 1943, à obra de Simões, J. M. Santos, Tomar e a sua Judaria [sic]. Tomar; Museu Luso-Hebraico de Tomar, 1943 (Tomar: Santos e Gouveia, 1943).

Schwarz, Samuel. “Contribution à l’étude de l’histoire des juifs espagnols”. Boletín de la Real Academia Gallega (A Coruña) Tomo III, nº 33 (1910), pp. 196-199.

Schwarz, Samuel. “Contribution à l’étude de l’histoire des juifs espagnols (suite et fin)”. Boletín de la Real Academia Gallega (A Coruña), Tomo III, nº 34 (1910), pp. 221-225.

“Schwarz (Samuel)” in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 27 (1945), p. 900.

A.V. “Samuel Schwarz. Cidadão do mundo, Português por opção”, Número monográfico na Revista de Estudos Judaicos, Vol. 7 (2004).

Miguel, Isaura Luísa Cabral. Religião e vida social no espaço urbano: comunidades judaicas na Beira Interior em finais da Idade Média (diss. de Mestrado em História Regional e Local). Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2007. [ http://hdl.handle.net/10451/401 ]

Roth, Cecil. A History of the Marranos (5th ed. Published to Commemorate the 500th Anniversary of the Expulsion of the Jews from Spain 1492-1992). New York: Sepher-Hermon Press, 1992 (cop. 1932).

Slouschz, Nahum. “(האנוסים בפורטוגל (סוף [Os cristãos novos em Portugal; em Hebraico]”. Reshumot 6 (1930), pp. 3-54.

Stuczinsky, Claude. “Samuel Schwarz (1880-1953)” in Dicionário do Judaísmo Português (coord. Lúcia Liba Mucznik et al.) Lisboa: Presença, 2009: 496-497.